sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Poemas soltos (VI)

Jasmine

From the Desert sands to the mountain snow
Came the morning light, from witch my feelings grow
Just one look was all that it took
One smile, one touch, one song, one goal

A Princess from the Wolves presented herself to me
I’ve showed her what I am, that entire she could see
In the valley of the dreams I lay my sword to rest
In the battles yet to come she’ll be there for the best

Who am I but a man, I asked myself again and again
Words don’t come that easy when a thousand words just came
In waves and waves of feelings that came and yet to come
Contain yourself my hart... calm down... don’t make it grow...
For my Loved One just knows that. Will She love me? I don’t know...

A secret smile I keep in mind, and it will vanquished the sands of time
The armour is heavy, the path a blur, what the future holds I must concur
The scent of Jasmines inhabits my chest, from the last time She laid to rest
Perhaps soon our paths will cross.... And an eternal Love that won’t be lost
The Ancient Gods will guide her to me, her Love I hope will pierce right thru me
I whisper Her name to all the four winds, so that She might know I search... I go...

The Oceans are deep, and there is my hart
I hide it... it’s broken... to pieces... apart...
Will it be safe in your hands? I must ask.
Much more than friends, that would be the task.

And at the end of the road I hope someday you’ll see

That my Love was that true, and You made part of me.

Dedicated to the Jasmine, The One that makes my feelings grow
Marco P. Valente 27/11/2015

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Poemas soltos (V)

Da minha janela

Da minha Janela...
Da minha janela nasce o Sol
um novo dia, pássaros chilreiam.
Uma velha Palmeira, as ruínas de um Templo
Igreja, depósito de água, do nosso sustento.

Na minha janela nascem sons
dois amigos que falam do seu dia-a-dia
Mudança Política ! Sonho ! Anarquia !
Povo, Paz, Pão, nossa Liberdade
Hoje aconteceu finalmente. Morte à falsidade !

Lá fora, a vida flui ao ritmo dos tempos
cá dentro... nova vida começa, em compassos lentos.
Do Oriente nasce uma nova Luz:
Sol Invictus, Mazda, Mitra e Jesus
Uma doce Amada que hoje me conduz, num odor Jasmin.

Da minha janela o futuro flui
Cá dentro um presente de estudos passados
Lá fora, sou tudo aquilo que tenho de ser
Forte, Decidido, Dominante, Sonhador
Aqui sou criança, frágil, sedutor e...
... Da minha janela, sou Rei e Senhor !

Marco Valente 12/11/2015

domingo, 20 de setembro de 2015

Rezas (V) São João Baptista (I)

Quando era moço pequeno e os dentes de leite davam lugar à dentição de adulto, sempre que me caisse um dente que eu conseguisse apanhar fazia algo que minha mãe tinha feito também quando era criança e assim me tinha ensinado. Pegava no dente, jogava-o para cima do telhado (na minha casa era de um galinheiro), dizendo assim:

"São João, São João, pega o meu dente podre e dá-mo são!"

Para que os dentes de adulto viessem fortes e sadios.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Lendas de Cabras

A cabra e a laje do ouro

Bode (Brunheira, Almodôvar - 11-03-2008)
Há alguns anos atrás um pastor que tinha algumas cabradas perto do lugar de Vale da Ursa começou a ter uns sonhos nos quais via uma ponte e escutava uma voz que lhe dizia assim:
“Se queres o teu bem, vai ao Vale de Santarém!”.
O pastor acordava então aflito, mas não ligou muito ao assunto. Até que os ditos sonhos começaram a ser recorrentes. Um dia, resolvido a pôr termo a tais sonhos, decidiu-se a pôr-se a caminho do Vale de Santarém. Lá chegado buscou a ponte dos seus sonhos e não tardou a encontra-la. Seguiu até ao meio da ponte e por lá ficou a mirar o rio. Ao seu lado estava um homem que o cumprimentou à sua chegada. Esse homem, falou então o seguinte:
“Há alguns dias que tenho um sonho. Sonho com uma cabra preta que todas as manhãs, ao romper da aurora vai para cima de uma grande laje e aí fica deitada ao Sol. Por baixo dessa laje há um tesouro. Mas não consigo descobrir onde fica tal sítio!”.
O pastor escutou a história bem caladinho e mal o outro homem saiu da ponte, pôs-se logo a caminho do Vale da Ursa. Essa cabrinha preta era uma das dos seus rebanhos e, de facto, todas as manhãs, lá ia ela em direcção a essa mesma laje, onde ficava deitada ao Sol.
Lá chegado, começou a escavar em volta da laje e ao levantar a dita, dizem que encontrou um fabuloso tesouro em ouro e assim ficou rico, abandonando a sua vida de pobreza.

Informante: Sr. José Manuel Guerreiro, Pastor, Brunheira-Almodôvar (informação recolhida a 15-11-2007 no sítio da Pedra Riscada, Brunheira, Almodôvar).

sábado, 29 de agosto de 2015

Fenómenos Luminosos (II)

Esferas Luminosas sobre o Algarve

"De algum tempo a esta parte temos verificado de Norte a Sul do país que diversos tipos de fenómenos luminosos fazem parte do imaginário popular e folclore local.
Alguns já registamos e passamos ao prelo. Outros serão aqui seguidamente transcritos mais em bruto, seguindo-se, quiçá, interpretações mais reflectidas futuramente acerca de um maior número de casos/relatos."

O informante optou pelo anonimato, face à hipocrisia de uma sociedade que ostraciza quem testemunha este tipo de fenómenos, tal como quando na Idade Média se ridicularizava quem afirmava que a Terra era redonda e não plana.
Noutros tempos estes fenómenos foram descritos à luz e discernimento de quem os observou e tiveram várias explicações (fenómenos naturais, manifestações de anjos, figurações de deuses e seus emissários). Urge efectuar esta recolha contemporânea, por forma a aquilatar como se processam estes fenómenos, aos mais variados níveis, nomeadamente o da imagética/fenómenos em si e das interpretações que os que observaram tais fenómenos fazem acerca dos mesmos, entre outros e variados aspectos.
Deixamos aqui seguidamente o seu testemunho:

“Era dia 14 de Abril de 2001, final das férias da Páscoa. Algures numa terra algarvia, num aldeamento turístico a cerca de 300 metros da praia. Entre este aldeamento e a praia fica uma zona descampada, seguindo o bosque que acaba na linha de dunas da praia.
Existe um acesso em terra batida, que percorre desde o aldeamento até à praia, atravessando estes contextos de zona descampada, bosque e por fim praia. À direita existe uma elevação.
Estava nessa noite com três amigos, todos eles de férias e, este era o último dia deles lá.
À meia-noite eles iam voltar para casa para fazer as malas pois seguiam a Norte no dia seguinte.
Estávamos no sítio habitual, uma «eira» que estava no meio do parque relvado, com a vista para o Sul, para o bosque.
Croqui efectuado pela testemunha, acerca do espaço físico dos avistamentos
Tínhamos connosco um cão pequeno, que simpatizou connosco. Este cão pertencia ao senhor encarregado do aldeamento, que tinha vários cães, estes abandonados por veraneantes desnaturados…
Era por volta da meia-noite, quando de repente o pequeno cão começa a mostrar intranquilidade. De repente, surge uma luz amarela, com reflexos de vermelho a circundar o monte (à direita), numa direcção da direita para a esquerda, numa velocidade lenta. Achamos estranho. De repente o pequeno cão começa a uivar, e eis que começam todos os cães a uivar. Nisto, nós, intrigados com a luz e os cães, reparamos que a luz deixou de contornar o monte, estando a flutuar no céu, por cima da copa das árvores, cerca de 50 metros.
A luz pára no ar, suspensa e, de repente, aparece outra, ligeiramente afastada, com a mesma cor e iluminação, não emitia qualquer som ou ruído.
Nisto elas começam a mover-se no céu, fazendo figuras geométricas aleatórias (mesmo à nossa frente, deveriam estar a cerca de 700 metros, talvez). De repente, uma delas desaparece, apaga-se, esfuma-se… e a outra desce em direcção à terra, desaparecendo no nosso campo de visão, por detrás do bosque. Nisto existe um clarão luminoso no sítio onde ela desceu. Confesso que senti-me ameaçado e em perigo, eu e os meus amigos, os cães não paravam de uivar.
Eis que de repente surge entre as árvores, lá ao fundo nesse caminho de terra batida, uma luz, mas esta era diferente, era branca, muito branca e era como um núcleo de luz, não iluminava nada à volta, era uma bola perfeita.
Ela estava a vir na nossa direcção… Nós apanhamos pedras e paus para nos defendermos. Os cães uivavam incessantemente.
A bola de luz não fazia barulho nenhum, andava em linha recta, não apresentava turbulência no movimento, flutuava na perfeição e, não iluminava nada à volta, nada que tenha visto antes…
Ela vinha na nossa direcção, estava cada vez mais próxima e dava para perceber isso, até que chegou à imediação da estrada alcatroada do aldeamento, a qual tinha um poste de luz e como se fosse magia desapareceu… Puffh…
Senti medo, mas senti curiosidade e vontade de me meter mato a dentro a correr atrás daquilo.
Nós neste momento estávamos junto do sítio onde esta Bola de luz desapareceu, até um amigo foi chamar o pai dele, por fim aconteceu um clarão no mesmo sítio do primeiro e igual. O pai do meu amigo testemunhou o último clarão…
Aqui os cães deixaram de uivar e acabou o evento. A Bola de luz Branca esteve a cerca de 30 metros de nós.
Foi assustador e intimidante…
Eu não acredito em tecnologia terrestre capaz de fazer tais coisas.
E não era natural, não eram bolas de plasma, nem gazes. Era algo que não era daqui.

O evento terá durado na sua totalidade cerca de 10 a 15 minutos, aproximadamente."

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Arte Rupestre (V) Capelas (I) Arqueologia (III) Reptilianos (I)

"Lenda da Passadinha"
Informante: José Sardinha

Um cavaleiro que um dia ia a passar por um ribeiro foi atacado por uma grande cobra[1].
Pediu ajuda a Nossa Senhora e ela apareceu-lhe com o menino ao colo e a cobra com medo fugiu[2].
O cavaleiro em agradecimento quis construir uma capela[3].
Quando começaram a construir num local baixo, no dia seguinte encontrava-se tudo derrubado no chão[4].
Então tiveram de construir a dita capela num sítio mais elevado.
Nesse ribeiro há um afloramento rochoso, com uma espécie de sela (que teria sido do cavaleiro, local onde os miúdos antigamente iam brincar), com a gravura de um pé (eventual podomorfo, que seria pela tradição do Menino Jesus) e de uma ferradura (que seria igualmente pela tradição, do cavalo que o cavaleiro montava)[5].
Chegaram a ocorrer disputas, há algumas décadas atrás, pela posse “espiritual” desta Capela, entre as gentes de Selmes (Vidigueira) e as gentes de Baleizão (Beja).




[1] Os cultos ofiolátricos são, em épocas celtas por exemplo, símbolos de uma ligação existente entre todos os seres vivos. Júlio César descreve, para os celtas da Gália, que o tema central da sua religião era a metempsicose (a possibilidade da alma humana reencarnar em outros seres animais e vegetais). Em Dorset, no Reino Unido, arqueólogos descobriram enterramentos de numerosos animais híbridos. Milles Russel (co-director da escavação), teria declarado a imprensa que as combinações de diferentes partes de animais teriam sido localizados em fossos com 2 a 3 metros de profundidade utilizados para guardar mantimentos e outros tipos de mantimentos debaixo das entradas das casas. Uma disposição particularmente estranha de ossos de animais, também envolveu um esqueleto humano. Uma jovem mulher parece ter sido vítima de sacrifício (com a indicação de que a sua garganta provavelmente teria sido cortada) e foi então enterrada numa “cama” especialmente executada com ossos de ovelhas, cães e cavalos. Significativamente, essas ossadas de animais tinham sido deliberadamente escolhidas para espelhar os ossos da mulher morta. Também poderia indicar que os antigos britânicos possuíam crenças ou mitos relacionados com animais híbridos, da mesma forma que os gregos. A maioria das civilizações ancestrais têm animais híbridos nas suas respectivas mitologias. E, ainda que os celtas não tenham deixado nenhuma evidência escrita acerca disso, as experiências híbridas com ossos de cavalos e vacas poderiam sugerir a existência de uma divindade celta com essas características.
Já o antropólogo Julio Cola Alberich (Cultos primitivos de Marruecos, Madrid, Instituto de Estudios Africanos del CSIC, 1954, p. 50) afirmava o seguinte, relativamente aos cultos ofiolátricos no Norte de África: “Para establecer su génesis, se hace preciso reconocer el estado de espiritu del primitivo ante una especie animal tan extraña en sus particularidades como el ofídio. A su vista, experimenta una concreta sensación de pavor y repulsión, una sensacion fuera de lo normal, que le conduce a la admiración.” Este ombre primitivo relaciona la serpiente com una serie de hechos a los que le conduce su observación directa de la Naturaleza: «a consecuencia de ello, há llegado a adquirir un conocimiento, primeramente muy oscuro, de algunos fenomenos relacionados com la vida del reptil – como su muda periódica, que le puede sugerir la idea de renovacion periódica y perpetua de la vida(…) La analogia, que para Preuss es casi la única fuente de la magia, halla aqui una evidente intervención. En ella puede buscarse las raíces de la primitiva ofiolatria».
[2] A hostilidade entre a Mulher e a Serpente já surge em textos bíblicos, nomeadamente do Antigo Testamento. Em Génesis 3,15: “Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a linhagem dela. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás no calcanhar.” Trata-se de um diálogo entre Deus e a serpente, depois do pecado de Adão e Eva no Paraíso. É a mulher que persegue e esmaga a cabeça da serpente. Exegeticamente, esse versículo parte da constatação que existe uma profunda hostilidade entre a humanidade e a serpente. É fundamental, notar a presença de uma vitória final da Humanidade. No texto hebraico essa vitória virá através da linhagem da mulher. Dessa forma é estimulada a interpretação messiânica já presente na tradição judaica antiga e, depois, nos padres da Igreja. E, juntamente com o Messias, também a sua mãe é assim implicada, nascendo a interpretação mariânica: Maria que esmaga a cabeça da serpente.
[3] O facto de alguém cristianizado querer construir uma capela/igreja/mosteiro após uma vitória é um tema muito comum na imagética cristã (p.ex. Mosteiro da Batalha).
[4] Este tema também é muito comum, só para citar dois da imensidão de exemplos existentes, isto só relativamente ao caso português: Em Mirandela, numa localidade apelidada de Romeu, na Horta de Nossa Senhora, no Lugar de Vale de Couço, dizia-se que tinha sido ali que teria aparecido a imagem de Nossa Senhora de Jerusalém de Romeu, onde lhe erigiram uma Capela. Mas Ela, de noite, fugiu para o local da aparição, até que, por último, tantas vezes a levaram que lá se resignou a ficar na Capela [esta situação não costuma ser usual, geralmente Nossa Senhora, ou Santa/Santo costumam fazer prevalecer a sua vontade]. Igualmente em Santa Bárbara, Vale de Prados de Ledra, apareceu a Senhora, que o povo levou para as Múrias. Mas de noite fugia para as ruínas, até que, tantas vezes a levaram que, por último, lá ficou. [Através destas alegorias as populações encontravam muitas das vezes explicações, no seu entendimento, para a existência de ruínas antigas próximas das suas então actuais localidades].
[5] A arte rupestre, geralmente surgida em locais de culto, calendários agrícolas, etc encontra assim este tipo de explicação na mente das pessoas das localidades mais próximas, pois é a explicação mais plausível aos seus olhos e experiência de vida, também ao nível da religiosidade, que professem na altura.

domingo, 2 de agosto de 2015

Etnografia (IV) Moinhos (II) Arte Rupestre (IV)

Armazém de Cereais / Casa das Bestas do Pé de Boi

No fundo da Ribeira da Azilheira, em local que nos foi de todo impossível prospectar, de acordo com palavras dos nossos informantes, existiriam ainda nos nossos dias [2008] visíveis, as ruínas de um moinho de água “muito antigo”. Tinha a designação de “Moinho da Caganita” e nas proximidades ainda estaria localizada uma mó do dito.
De acordo com as palavras de alguns pastores, moradores nas redondezas, teria aparecido nesta Ribeira da Azilheira, há alguns anos atrás, uma pedra “com letras romanas ou gregas” e alguns desenhos. Terá porventura sido levada por alguém, ou a vegetação a terá coberto e protegido de olhares alheios a estas coisas do Património pelo Património em si.
Numa das edificações que podemos observar no Pé de Boi, que se encontra nos nossos dias em ruínas e que teria sido armazém de cereais numa das dependências e casa das bestas de carga[1] numa outra, verificamos que o lintel de uma das entradas tinha umas letras e uma data gravadas, enquadradas no interior de uma espécie de dupla taça.
Inscrição Armazém do Pé de Boi
Executada em 1932 por António Francisco Guerreiro (A.G.), pessoa que sempre trabalhou no campo, analfabeto, mas com dotes artísticos.
Aqui fica a nossa pequena homenagem, registando para a posteridade a marca que deixou inscrita na pedra.

Lintel com Inscrição  Armazém do Pé de Boi



[1] Bestas estas que traziam os sacos de cereais já moídos dos moinhos em redor, nomeadamente do Moinho da Caganita.

domingo, 31 de maio de 2015

Etnografia (III) Cruzeiros (I) Arte Rupestre (III)

O Cruzeiro do Alto do Mú (Serra do Caldeirão)

Por todo o país existem fenómenos demonstrativos da religiosidade popular. Um desses fenómenos é o das “Alminhas”, maravilha única[1] que encontramos espalhada no nosso território, de Norte a Sul.
Paralelamente surgem os Cruzeiros. Para além ao seu significado intrínseco (de representação do Cristo crucificado), a sua iconografia varia de local para local, sendo o contexto no qual está implantado, de extrema importância para a sua interpretação.
No Norte, ao Domingo, terminadas as Vindimas, era hábito cantar, dançar, deitar-se as “Vivas” e reinar, junto ao Cruzeiro da Igreja (qual representação totémica da Morte de um Deus, para redenção e celebração da Vida pelos seus seguidores).
Alguns adquiriram o estatuto de Monumento Nacional (como é o caso do Cruzeiro de Tibães, desde 1910). Também podem assumir o estatuto de marcas divisórias territoriais, como é disso exemplo o Cruzeiro do Padrão da Légua, marcação no terreno da separação entre a Via Veteris e a Karraria Antiqua. Em Pombal, mais precisamente no Louriçal, o Cruzeiro / Pelourinho, dos séculos XVI / XVII assume também essa identidade, de vetusto pelourinho, em alusão simbólica à antiga autoridade municipal.
Os Passos da Via Sacra, dos quais são exemplo os da localidade de Selmes, representam simbolicamente essa manifestação de religiosidade, vivida com mais intensidade no Domingo de Ramos (data da entrada triunfal do Cristo em Jerusálem).

O Cruzeiro do Alto do Mú (Serra do Caldeirão)



Croqui do Cruzeiro do Alto do Mú (ou da Mú, como é também conhecido o local)




Neste caso específico, observado em 2007, estamos na presença de uma Cruz de Calvário, executada numa rocha carbonatada. Aos pés na Cruz, no interior da representação do Golgota, surge a data de 1916. Não se encontra muito distante de uma encruzilhada (Alto do Mú – Felizes – Malhão). Marcará o local onde alguém terá falecido (é uma interpretação).

Em Marmorais (Abadim, Cabeceiras de Basto) também encontramos algo de funcionalidade similar, sendo neste caso mais recente e móvel. Marco provável do local de falecimento de FMG (os registos paroquiais do local por certo ajudarão a saber de quem se trataria).
 


Marmorais, Abadim. Durante limpeza da laje móvel
Marmorais, Abadim. Após a limpeza da laje móvel

Croqui da laje móvel. Cortesia da Dra. Marta A. Duarte
De qualquer das formas, aqui fica o registo de ambos, para quem se dedique a estudos mais aprofundados no que a estas temáticas diga respeito.
Poderia ser incluído este Cruzeiro (marca de religiosidade e crença num Deus que protege e salvará as Almas deste Mundo) num qualquer caminho pedestre (a exemplo do BCL-PR1 – Pelos Caminhos do Monte da Saia, que percorre os caminhos rurais entre o Lugar da Póvoa e Remelhe, em Barcelos).

Bibliografia:

·         AGRIPRO, Ambiente Consultores SA (2006): Estudo de Incidências Ambientais do Parque Eólico da Serra do Mú, Lisboa;
·         BERNARDES, João Pedro, et al. (2006): Actas das Ias Jornadas – As Vias do Algarve, CMSBA/CCDR Algarve;
·         CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain: Dicionário dos Símbolos, Editorial Teorema, Lisboa;
·         FERREIRA, Fernando (2007): Parque Eólico da Serra de Mú Estudo Geológico-Geotécnico, Geoárea Consultores de Geotecnia e Ambiente;
·         FRUTIGER, Adrian (2001): Sinais & Símbolos, Ed. Martins Fontes, São Paulo;
·         Gattegno, David (2000): simbolos, Col. ba-ba, Ed. Hugin;
·         GONÇALVES, António J. (2000): Monografia da Vila de Almodôvar, ACDJA (Associação Cultural e Desportiva da Juventude Almodovarense);
·         GUERREIRO, Rui Manuel Cortes (1999): Levantamento da Carta Arqueológica de Almodôvar. Relatório de Estágio Profissional, II vols., CMA / CEFPO;
·         LEAL, Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho (1873-1890): Portugal Antigo e Moderno: Dicionário Geográphico, Estatístico, Chorográphico, Heráldico, Archeológico, Histórico, Biográphico & Etymológico de Todas as Cidades, Villas e Freguesias de Portugal e Grande Número de Aldeias, Livraria Editora de Mattos Moreira, 10 vols., Lisboa;
·         LEXIKON, Herder (1990): Dicionário de Símbolos, Ed. Cultrix, São Paulo;
·         Littleton, C. Scott (Editor Geral) (2002): Mitologia, The Illustrated Anthology of World Mith e Contar Histórias, Duncan Baird Publishers, Londres;
·         O'CONNELL, Mark; Airey, Raje:  Sinais & Símbolos, Hermes Casa;
·         OLIVEIRA, Catarina: Paisagens e Patrimónios. Novos Caminhos para os Territórios Rurais. A Experiência de uma Associação de Desenvolvimento Local no Alentejo, In IIº CER. Sub-Tema 4: Usos e olhares: dos recursos ao património;
·         TEIXEIRA, C.; GONÇALVES, F. (1980): Introdução à Geologia de Portugal, INIC, Lisboa;
·         VALENTE, Marco Paulo (2008): Parque Eólico da Serra do Mú – Relatório Final do Acompanhamento Arqueológico de 30 de Outubro de 2007 a 15 de Maio de 2008, Perennia Monumenta, Famalicão;
·         VASCONCELLOS, José Leite de (1989): Religiões da Lusitânia, 3 vols., INCM;
·         WILLIS, Roy (Editor Geral) (2006): World Mitologia, Duncan Baird Publishers, London

Webgrafia:




[1] “Portugal é o único país que, na sequência do Concílio de Trento (1545-1563), criou os monumentos que são marcas profundas da religiosidade popular.” In http://www.snpcultura.org/vol_alminhas.html, consultado a 31-05-2015, 10:44.
"No cristianismo primitivo só havia Céu e Inferno, a ideia do Purgatório só surgiu na Idade Média, quando a Igreja, na sequência do Concílio de Trento de 1563, o impõe como dogma, numa lógica de resposta católica à Reforma levada a cabo pelos protestantes. Passava assim a haver um estado intermédio para as almas das pessoas que faleciam. E em vez do dualismo do Céu, para os bons, e do Inferno, para os impuros, criou-se um estado intermédio, um local onde durante algum tempo as almas ficariam a purificar", observa o historiador [António Matias Coelho], evidenciando, porém, a forma específica como em Portugal se interpretou as indicações de Trento.” Idem, 10:48.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Fantasmas, vultos e sombras (V)

"Os Espíritos da Estrada Antiga"

Há algumas dezenas de anos atrás, existiam duas Herdades que ocupavam um espaço territorial vasto.
Falamos da Herdade das Coimbrãs e do Monte de S. Luís (onde existem ainda hoje as ruínas de uma capela, que habita as memórias, mesmo das gerações mais novas, pese embora entre estas últimas sejam mais difusas).
Entre ambos os locais existia uma estrada em terra batida, que passava junto a um determinado ribeiro.
Quando as pessoas levavam animais por aquele caminho (cavalos, burros, vacas, ovelhas) esses animais desviavam-se do dito, num certo e determinado ponto.
As pessoas diziam então entre si, que ali haviam espíritos e fantasmas não muito longe desse mesmo ribeiro, o que fazia com que os animais daí se desviassem.
Poderia ter existido uma necrópole no local e esse achado de ossadas por parte de algum popular aliado aos contínuos episódios envolvendo os animais ter motivado tais estórias?
É uma possibilidade.
Recolha efectuada a 14/04/2015.
Informante: José Domingos Pedras Sardinha, 29 anos, nascido em Santiago Maior (Beja) e a  viver actualmente em Baleizão.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Brincadeiras e/ou Jogos de Infância (III)

“Moda da Laranjinha”

Maria Isabel de Gouveia Valente (Foto Lis, Funchal, Junho 1969)

Ainda cheguei eu mesmo a jogar/dançar esta moda com primos e amigos no Arco de São Jorge (Madeira), quando era moço novo, ensinada pela minha mãe.

Os versos que aprendi eram assim:

“A Moda da Laranjinha
É um jogo assim ao lado (x2)
Ponho¯o  meu joelho em terra
Fica o Mundo admirado (x2)

Maria sacode a saia
Manel alevanta o braço (x2)
Maria dá-me um beijinho
Que eu te darei um abraço!” (x2)

Alguns anos mais tarde, melhor dizendo, recentemente, ao observar o Belíssimo Programa “O Povo Que Ainda Canta”, realizado por Tiago Pereira, verifiquei que esta moda apenas variava em alguns aspectos da letra, com uma moda cantada por um casal de idosos, os (agora) célebres “Velhos da Torre”, Alte, Loulé[1]. E cantavam os ditos deste modo:

“E a moda da Carrasquinha
É uma moda assim ao lado (x2)
Que se põe joelho em terra
Todo¯o Mundo fica pasmado (x2)”

Buscando ainda mais fundo no baú das memórias, recordei-me de um jogo acerca do qual tinha lido algo há algumas décadas. Encontrei esta pérola, que passo seguidamente a transcrever na íntegra:

Carrasquinha

Este jogo é uma dansa de roda que nos foi descripta por pessoa que a viu dansar a raparigas aldeãs, mas que poderão dansar muito bem as meninas da cidade.
Como nos outros jogos de roda dão-se as mãos formando circulo e gira-se cantando; podem-se empregar diversos cantos em que de espaço a espaço se intercalam os seguintes, caracteristicos do jogo, e que acompanham os movimentos que lhes são particulares:

110        Este jogo da carrasquinha
É um jogo assim de lado
Pondo o joelho em terra
Todo o mundo fica pasmado.

Mathilde, sacode a saia;
Mathilde, levanta o braço;
Mathilde, dá-me um beijinho;
Mathilde, dá-me um abraço.

Dizendo o primeiro verso soltam os jogadores as mãos; dizendo o segundo voltam-se com o braço esquerdo dobrado, tendo a mão sobre o peito, e o cotovelo apontando para o peito da que fica à esquerda; dizendo o terceiro verso põem um joelho em terra e dobram-no simplesmente; dizendo o quarto levantam-se; dizendo o quinto dão uma volta completa, cada um por si, fazendo gesto de sacudir a saia; dizendo o sexto levantam o braço direito; dizendo os dous ultimos, duas a duas aproximam as frontes, tomam-se pela cintura e cada par dá uma volta, terminada a qual dão as mãos de novo, continuando a dansa de roda.”
 In, COELHO, F. Adolfo (1919): Jogos e Rimas Infantis, Companhia Portugueza Editora, Bibliotheca de Contos para Creanças, 2ª Edição, Porto

“Malvado” do Tiago Pereira, que me faz ir buscar estas coisas ao baú das memórias…
Bem hajas companheiro viajante, bem hajas sempre.



[1] No século XVI, a população local da freguesia do Arco de S. Jorge (Madeira), era proveniente de Portugal Continental, nomeadamente do Minho e do Algarve. Ter-se-iam assim entrecruzado estas influências, assimilando todo este processo de aculturação? Fica a questão para os Filólogos e demais colegas estudiosos destas problemáticas interessantíssimas, a meu ver.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Nós Ossos que aqui Estamos…

Mesmo na hora da morte podemos observar diferenciação social. Uma das formas de o fazer é através da observação das lápides de sepulturas que podemos efectuar em alguns cemitérios.
Num primeiro exemplo, podemos observar no campo epigráfico a seguinte leitura:

D[escanse]E[m]P[az]A[mem]
AQUI JAZ
FRAN[CIS]CO ROSA
CAMPANIÇO FALLECEU
EM 8.5.911 COM 73 ANNOS
DE EDADE ETERNA
RECORDAÇAO DE SUA
FILHA MARIA DA
CONCEIÇAO ROSA
ESTAMENHA
É dado destaque à data da sua morte, mas não à do seu nascimento. Encontra-se este epitáfio gravado em relevo sobre o mármore de uma sepultura, agora esquecida e abandonada, pois o tempo tudo apaga, menos o desejo do eterno descanso para o ente querido que partiu.
Não muito longe desta lápide, encontramos, gravado de uma forma mais humilde, o próximo epitáfio. Falecimento ocorrido cerca de 9 meses antes.
Neste podemos ler o seguinte:

AQUI JAZ
MIGUEL
PIRES
FALECEU
EM 12-8-
-1910-
Nesta não sabemos quem a mandou executar, nem se tinha familiares vivos à altura para o fazer. Apenas sabemos que Miguel Pires ali jaz e a data do seu falecimento.
De uma coisa temos todos a certeza (pelo menos nos nossos tempos e enquanto se não inventar o elixir da eterna juventude), quando nascemos um dia iremos falecer.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Etnografia (II) Vias Antigas (I)

Via do Cerro da Quinta

Em trabalhos que efectuamos entre os meses de Outubro de 2007 e Maio de 2008, pelas encostas da Serra do Caldeirão coordenamos, num segundo momento, no terreno o nosso colega arqueólogo Dr. Luís Pedro Castro Vilaça Moura. Decorrente dos seus trabalhos de prospecção conjunta (após formação intensiva inicial em Almodôvar e nas frentes de trabalho das obras) alertou-nos para a presença de uma via antiga, observável ainda nos dias de hoje, devido à erosão que a contínua passagem de carroças pelo local produziram sobre o substracto litológico.
Via antiga (observa-se em primeiro plano o desgaste no substracto litológico)

Junto a uma pequena ribeira, próxima ao Cerro da Quinta observamos então da existência de marcas de rodado de veículos de tracção animal. Este local fica submerso estivalmente. A distância entre as marcas de rodado visíveis andava à volta de 1,50metros. Seguiam uma orientação sensivelmente num eixo NE-SW.
Presume-se que tivessem sido produzidas ainda em época contemporânea, como acesso de carroças a uma pequena quinta e sua respectiva horta, não muito longe do afloramento rochoso onde se observava a dita via.
Os nossos sinceros agradecimentos à empresa de arqueologia Perennia Monumenta, na pessoa do Prof. Doutor Francisco Reimão Queiroga, pela possibilidade de execução de tais trabalhos por este imenso Sul.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Etnografia (I) Arqueologia (II) Moinhos (I) Arte Rupestre (II)

"Cerro do Moinho Velho"

Aspecto do elemento estruturado, visto de Norte para Sul



Estrutura de funcionalidade indeterminada pelo que é observável nos nossos dias, mas, muito possivelmente moinho, conforme designação presente na respectiva Carta Militar do local, de planta circular, utilizando o xisto como matéria-prima base de construção.
No eixo EW apresenta um diâmetro de 6,50metros e no eixo NS de 5,80metros. Tem uma altura observável na actualidade entre os 1,50metros e os 1,90metros, desde a base da mesma. Ausência de materiais de qualquer tipo, observáveis macroscopicamente.

Levantamento em manga plástica das gravuras executadas sobre o elemento pétreo

Apresenta um elemento cruciforme gravado sobre uma espécie de globo virado a Este, que passamos a descrever de seguida: 

Levantamento Elemento Cruciforme sobre Globo
Gravura executada por picotagem presente na única pedra de ombreira da entrada, imediatamente acima da soleira que se encontra orientada para o ponto cardeal Este. 
Pormenor da ombreira onde podemos observar o elemento gravado

Representação do culto de São Salvador do Mundo ou sua mimetização posterior[1]? Seja qual tenha sido o motivo era um sinal protector colocado à entrada de uma estrutura, entrada que se encontrava voltada ao nascer do Sol e isso é evidente.




[1] Gostaríamos de apresentar seguidamente uma hipótese visando a execução da gravura em si. Proteção do local (se moinho, serviria para moer grão, com o qual se faria farinha para o pão). Não é raro surgirem elementos cruciformes gravados em vetustas pedras de moinhos, quer de vento como de água, muito pelo contrário.
Apenas um apontamento mais, acerca do culto de São Salvador do Mundo (que poderá aqui estar representado, ou não). Há uma festa que se celebra a 6 de Agosto, do Divino Salvador, São Salvador ou mais simplesmente O Salvador. O episódio da Transfiguração bíblico é o episódio que motiva todas estas representações salvíficas. Com forte conteúdo místico, assinala o ponto culminante da vida pública do Salvador (Jesus=Deus Salva), testemunhado por três dos seus apóstolos (a fazer fé nas escrituras):
“Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que, pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, alcançaram, por participação, uma fé tão preciosa como a nossa… Com efeito, não foi com base em hábeis fábulas que vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, mas, por termos sido testemunhas oculares da sua majestade. Porque ele recebeu, de Deus Pai, a honra e a glória, quando, do seio da glória magnífica, lhe foi dirigida esta voz: Este é o meu filho muito amado, em quem pus todo o meu enlevo. Esta mesma voz que vinha do céu, a ouvimos, quando estávamos, com ele, no monte santo…” (2 Pe 1,1. 16-18).
O episódio ocorreu num alto monte, não longe do lago de Genesaré que depois foi identificado com o monte Tabor, nas proximidades de Naim. Ocorreu cerca de uma semana após o episódio da multiplicação dos pães e dos peixes.
Na representação, Cristo, revestido de Luz, abre os braços, num gesto que lembra a crucifixão, mas, ao mesmo tempo, aparece suspenso no ar, no acto da Ressureição. O seu culto foi muito divulgado pelo Mundo. Deu nome a um país e a duas cidades (capital de El Salvador e São Salvador da Bahia de Todos os Santos, capital e sede da administração colonial do Brasil até 1763).
Geralmente a sua iconografia consiste no seguinte: Cristo transfigurado, glorioso, com o globo ou sobre o globo, vestes brancas, de mãos estendidas em Cruz e em Glória.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Arqueologia (I) Marcos Territoriais (I) Arte Rupestre (I)

Marco da Comenda de S. Clemente (Moita Redonda)[1]

Durante trabalhos que executamos entre Outubro de 2007 e Maio de 2008, pela serra do Caldeirão fomos registando e investigando variadíssimos elementos patrimoniais.
Destes, também um marco territorial mereceu a nossa atenção.
Aspecto do Levantamento do Marco (presumivelmente ainda in situ)

Tratava-se de um marco de delimitação territorial em calcário. Muito possivelmente do Século XVII.
A transcrição é a que segue, uma vez que se assemelha à de um outro marco que Abel Viana e Mário Lyster Franco estudaram e que tinha sido achado em espaços geográficos próximos.

Com pequena espada – presumivelmente da Ordem de S. Tiago ou Espatários – que encima a seguinte inscrição:
:COM:DE / SCLEM
Levantamento Marco Comenda de S. Clemente

Que Abel Viana e Mário Lyster Franco transcreveram como COMENDA DE SÃO CLEMENTE, e dataram como sendo do século XVII, mas de proveniência desconhecida. Este marco possivelmente ainda se encontrará in situ, uma vez que se situa também em zona de fronteira entre S. Barnabé e Loulé (existe um marco contemporâneo em betão a cerca de um metro, de divisão territorial entre Almodôvar/S. Barnabé e Loulé).
Uma leitura atenta de várias fontes levou-nos a concluir o seguinte:
Marco da Colecção Rosa Madeira - Museu Arqueológico Faro
·         a existência de pelo menos um outro marco exactamente idêntico, recolhido por um indivíduo do Ameixial (Sr. Rosa Madeira – presentemente com o n.º 00091 de inventário relativo à colecção deste indivíduo no Museu Arqueológico e Lapidar Infante D. Henrique de Faro), de proveniência desconhecida, mas que muito certamente  viria de uma qualquer localidade ou monte situado nas cercanias e comprovará que existia uma delimitação deliberada e efectiva dos terrenos da dita comenda;
·         apesar dos solos neste local serem relativamente pobres, os locais de implantação e demarcação desta “Comenda de São Clemente” são-nos desconhecidos e poderiam englobar solos aráveis e perfeitamente cobiçáveis situados mais a Sul;[2]
·         o facto de ter representada a Espada da Ordem de Santiago, faz-nos pensar que fosse um terreno da qual a dita fosse possuidora, uma vez que neste espaço geográfico a sua influência foi imensa.

Este marco, para além disso, também é simbólico da divisão geológica dos terrenos da orla terciária e quaternária do Barrocal e do litoral, em contraste com o maciço antigo, os ásperos e ondulados xistos serranos. Muito possivelmente, se forem realizadas prospecções sistemáticas nestes e entre estes locais, outros marcos poderão surgir, quiçá ainda in situ.
Gostariamos de expressar o nosso agradecimento sincero à Dra. Marta Valente (Geóloga e Ilustradora), pelas informações quanto à descrição geológica de diversos locais e pelo tratamento informático em gabinete do levantamento efectuado pela nossa pessoa no local.
Também gostaríamos de aproveitar para agradecer a disponibilidade e amabilidade do Dr. Nuno Beja (Museu Arqueológico e Lapidar Infante D. Henrique, Faro), dos funcionários do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, Bibliotecas de Almodôvar e Beja. Ao Dr. Rui Cortes também fica aqui a nossa palavra de agradecimento.

Bibliografia consultada:

·         ENCARNAÇÃO, Pedro Henrique Ferreira (1993): As visitações da Ordem de Sant’iago às igrejas do concelho de Loulé no ano de 1534, Delegação Regional do Algarve da Secretaria de Estado da Cultura, Faro;
·         GUERREIRO, Rui Manuel Gaspar Cortes (1999): Levantamento da Carta Arqueológica de Almodôvar Relatório de Estágio Profissional, II vols., C.M.A., C.E.F.P.O.;
·         LAMEIRA, Francisco I.C.; SANTOS, Maria Helena Rodrigues dos (1988): Visitação de igrejas algarvias da Ordem de S. Tiago de 1554, A.D.E.I.P.A., Faro;
·         LEAL, Bruno (2004): La Crosse et le Bâton. Visites pastorales et recherche des pécheurs publics dans la diocèse d’Algarve 1630-1750, Centre Culturel Calouste Gulbenkian, Paris;
·         MAGALHÃES, Joaquim Romero (1993): O Algarve Económico 1600-1773, Editorial Estampa, Colecção Histórias de Portugal, n.º3;
·         MARTINS, Luísa Fernanda Guerreiro (2004): Memórias Paroquiais do Concelho de Loulé, In Al-uliã, Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, n.º 10, Loulé, pp. 387-435;
·         SERRA, Manuel Pedro (Coord.) (1996): Visitação da Ordem de Santiago ao Algarve 1517-1518, Suplemento da Revista Al-uliã, n.º 5, Arquivo Histórico Municipal de Loulé, Loulé;
·         VIANA, Abel; FRANCO, Mário Lyster (1945): O espólio arqueológico de José Rosa Madeira, Separata da Revista Brotéria, vol. XLI, Lisboa




[1] A informação acerca deste elemento pétreo e local em si – para além da presente em VIANA, Abel; FRANCO, Mário Lyster (1945): O espólio arqueológico de José Rosa Madeira, Separata da revista Brotéria, vol. XLI, Lisboa e na ficha de sítio n.º 74 em GUERREIRO, Rui Manuel Gaspar Cortes (1999): Levantamento da Carta Arqueológica de Almodôvar Relatório de Estágio Profissional, vol. II, C.M.A. C.E.F.P.O. – foi dada inicialmente por um cidadão de origem francesa [que nós, para protecção da dita pessoa optamos por não mencionar aqui neste post]. Disse-nos que tinha visto há algum tempo atrás uma pedra com um tipo de espada gravada. Poderia ser uma estela de qualquer tipo (como arqueólogo e associativista julgamos ser nosso dever averiguar sempre estes informes, uma vez que o trabalho de arqueólogo não começa em campo e não termina em gabinete, mesmo que alguns deles se revelem posteriormente como uma mera “caça aos gambuzinos”).
[2] “Em 1629 a Câmara de Loulé recebe ordem régia para tombar as propriedades do concelho, o que se torna difícil por pegarem com as de gente poderosa – os Barretos e os Furtados de Mendonça. Demarcação controversa fez-se, em 1624, com o Morgado de Quarteira; com o comendador Lopo Furtado de Mendonça só em 1639.” In MAGALHÃES, Joaquim Romero (1993): O Algarve Económico 1600-1773, Editorial Estampa, Colecção Histórias de Portugal, n.º 3, p.150. Mas, não é somente com membros da aristocracia que o município de Loulé dirime os seus conflitos, com o clero, possuidor de terrenos, as questiúnculas também eram inevitáveis. “A partir de 1705 começam os conflitos da Câmara de Loulé com os padres gracianos, grilos e capuchos por causa dos gados que estes privilegiados metiam nos limites da vila.” Idem, p. 171.

Expressões da Linguagem Popular (IX)

"Queres ver um soberbo? Dá a chave de um palheiro a um pobre!"

Frase utilizada para caracterizar aqueles indivíduos que vindo de um meio pobre, quando se apanham por vezes em posições de destaque, esquecem as suas raízes e tornam-se assim arrogantes para com os outros.

Informante: César Augusto Castro Tereno Coutinho, 37 anos, nascido e criado em Moura.

Brincadeiras e/ou Jogos de Infância (II)

"Lerpa"

"Jogávamos à «Lerpa» com cromos dos jogadores de futebol.
Colocávamos os cromos na mão e tentávamos virar os jogadores com a face para cima até um de nós ficar com eles todos."

Informante: António José Ferreira de Almeida Valente, 72 anos, nascido em Castelões de Cepêda (Paredes) e a viver em Vila Nova de Gaia.

Alcunhas Nortenhas (I)

Alcunhas da escola

"Quando andávamos na escola (que agora já não existe), adstrita ao Colégio de Gaia, tratavamo-nos por alcunhas.
Ia descalço às 6 horas da manhã buscar o pão à Padaria do Sr. Alfredo. Depois ia para a escola.
Devia ter cerca de 13 anos. Todos nos tratavamos por alcunhas.
Havia um Professor Primário que era o Sousa "Maneta" [porque tinha uma deficiência no braço direito].
Das que me lembro eram:
Valente 1º (o meu irmão Mário)
Valente 2º (o meu irmão Rui)
Valente 3º (eu)
O Coca, o Bexiga, o Rato Seco, o Grilo e outros."

Informante: António José Ferreira de Almeida Valente, 72 anos, nascido em Castelões de Cepêda (Paredes) e a viver em Vila Nova de Gaia.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Contos de moiros e moiras (II)

"Telheiro dos Mouros"

Em trabalhos de prospecções arqueológicas efectuadas no âmbito do Acompanhamento Arqueológico de Construção do Parque Eólico da Serra do Mú[1], tidos entre os dias 30 de Outubro de 2007 e 15 de Maio de 2008 detectamos uma série de elementos patrimoniais dignos de registo – desde sítios arqueológicos, etnográficos, até registos orais.
Telheiro dos Mouros
Um destes locais encontrava-se inacessível na altura, pois estava rodeado de espessas camadas de silvas com 2,5 metros de altura. De acordo com alguns testemunhos era um local que já no tempo dos avós dos habitantes mais idosos da Brunheira se encontrava em ruínas. Situava-se na confluência de várias pequenas ribeiras que correm por aquele local no Inverno e que ficam completamente secas durante o Verão.
Está associado a este sítio uma lenda que refere que existia um túnel neste local, que foi tapado devido ao temor que inspirava nos habitantes das proximidades.
Dá também conta esta lenda, da existência de duas princesas mouras[2] que se encontravam encantadas e que para as desencantar seria necessário arar o terreno nesse local. Teriam de ser seguidos, contudo, os seguintes preceitos: a terra teria de ser arada nove vezes (nem menos, nem mais), recorrendo a uma junta de bois negros como a noite[3].
Uma última achega a esta estória deu-a o Sr. António de Jesus Rocha, pessoa dos seus 71 anos na altura, morador no Monte da Cumeada, a de que a dita estaria descrita no Livro de S. Cipriano[4].

Bibliografia consultada:

BRAGA, Teófilo (1999): Contos Tradicionais do Povo Português, II volumes, Colecção Portugal de Perto, nos 14 e 15, 5ª edição, Publicações D. Quixote, Lisboa;
CARDOSO, Carlos Santos (1961): Subsídios para uma Monografia Histórica e Descritiva da Freguesia de Avanca;
COELHO, Adolfo (1985): Contos Populares Portugueses, Colecção Portugal de Perto, n.º 9, Publicações D. Quixote, Lisboa;
MARQUES, Gentil (1999): Lendas de Portugal, V volumes, 3ª edição, Âncora Editora, Lisboa;
PHILIP, Neil (1999): Comentar Mitos e Lendas, Ed. Civilização;
VALENTE, Marco (2008): Lendas de Mouros e Mouras da Serra do Caldeirão breves apontamentos, In Aldraba, Boletim da Aldraba - Associação do Espaço e Património Popular, n.º 6, Lisboa, pp. 16-18;
VASCONCELLOS, José Leite de (1989): Religiões da Lusitânia, 3 volumes, INCM



[1] Ou Alto do Mú, na Serra do Caldeirão.
[2] Geralmente estas “mouras encantadas” são representadas por figuras belíssimas que ficaram para trás durante o processo de reconquista cristã das terras do al-Andalus. Costumam proteger tesouros que serão dados a quem as libertar do seu encantamento. Neste caso surgiriam num túnel ou nascente (outros são geralmente os locais onde estas guardiãs dos locais de passagem para o interior da terra poderiam surgir, tais como: fontes, pontes, rios, poços, cavernas, antigas edificações e vetustos castelos, ruínas de túmulos e locais pré-históricos como o são as antas, palas, orcas/arcas e castros). Não raras vezes substituem antigas divindades ou ninfas precedentes e são elas mesmas por vezes substituídas por cultos cristãos, como controlo desse mesmo mundo sobrenatural e profano.
[3] Em Avanca (freguesia portuguesa do concelho de Estarreja), contavam-se muitas estórias onde os protagonistas eram “bruxas”, “grades de ouro” e “mouras encantadas”. Destacam-se alguns aspectos seguidamente. Na noite de S. João apareceria uma grade de ouro no fundo do poço dos Chavões (situado nas Chousinhas) sendo necessária uma junta de bois negros como a noite para a tirar do fundo. Também nesta noite de S. João, apareceria uma moira encantada no Pinhal do Engelim e na ponte da Várzea apareciam bruxas à meia-noite. Por último, no lugar do Fojo, a mina da Água Nova, ou ainda Mina dos Nove, teria tido como origem uma nascente que brotou subitamente do sulco do arado ou da charrua, quando um lavrador andava a lavrar o terreno.
[4] É muito natural quando se misturam estórias e lendas dos registos orais, dependendo de orador para orador o “acrescentar um ponto” que muitas das vezes nada tem a ver com a estória em si. Também seria de todo o interesse verificar e estudar os fluxos migratórios na Península Ibérica, desde a Antiguidade até tempos contemporâneos, por forma a aquilatar melhor influências e géneses lendárias (se possível e realizável ainda nos nossos tempos).