domingo, 23 de novembro de 2014

Expressões da Linguagem Popular (VIII)

Antigamente, pelas décadas de 30 / 40 do século XX (assim como anteriores e posteriores) muitas pessoas que habitavam em localidades do interior de Portugal passavam toda uma vida sem ver sequer o mar. Atarefados na sua labuta diária, não tinham tempo para o ócio ou para si próprios sequer.
Esta expressão foi escutada a uma aldeã da Estrela, (aldeia pertencente à freguesia da Póvoa de S. Miguel, concelho de Moura) esposa de um moiral, num terreno alugado para a pastagem de gado.
Quem alugava aquele dito monte, naquele ano tinha de ser o "festeiro" da dita aldeia.
A expressão foi a seguinte:
"A menina não tem paixão de ir a banhos da ribêra?"
Num primeiro momento a informante não compreendeu o que a dita expressão queria dizer, até que a mãe lhe explicou, dizendo:
"A senhora quer saber se não tens pena (paixão) de não ir à praia (banhos da ribêra) [de Sines]."
Como a senhora nunca tinha ido à praia, a ver o mar, para ela ir à praia seria como ir tomar banho numa ribeira.

Informante: Professora Wanda Rodrigues e Rodrigues, recolhida em Castro Verde a 22/11/2014.

Episódios Caricatos (VI)

Antigamente costumavam-se fazer todo o género de pregões pelas ruas das aldeias e vilas (novidades, venda de terrenos, casamentos, falecimentos, etc...).
Quando em Moura faziam sessões de cinema ao ar livre, na década de 30 do século XX, a informante recorda-se de um episódio caricato.
O pregoeiro estava a percorrer as ruas da dita localidade, e dizia assim:
"No Sábado, vai haver cinema sonoro falado,
ao ar livre, destapado,
na esplanada do Sr. Dr. Bento Caeiro.
Com as «Pirulitas do Senhor Doutor!»"
(queria ter dito, "As pupilas do Senhor Reitor" - filme de 1935 de Leitão de Barros).

Informante: Professora Wanda Rodrigues e Rodrigues, recolhida em Castro Verde a 22/11/2014.

Festividades Cíclicas (I)

O Enterro do Bacalhau

[Memórias de eventos ocorridos em 1938, em Moura, durante a 4ª Feira de Cinzas.]

Haviam Cortejos que andavam pelas ruas (mais Homens do que Mulheres faziam parte dos mesmos), fazendo e dizendo versos de escárnio e maldizer.
Andavam pelas Tabernas, Esquinas e Ruas com um esquife, com o dito "Bacalhau" virtual.
Uma senhora que lhe tinha falecido recentemente o marido diziam uma rima que terminaria assim:
"À senhora fulana de tal fica um penico de ouro para meter as libras!"
A outro diziam o seguinte (mas sempre rimando, que agora não me recordo como era a dita rima na totalidade):
"Ao Dr. Bento Caeiro, deixamos um saco roto para ele meter o dinheiro!" - ele era dono de um colégio e tinha muitas obrigações em termos financeiros. Também os pais de alguns alunos só pagavam quando podiam: "Ali o dinheiro não coalhava!".

Informante: Professora Wanda Rodrigues e Rodrigues, recolhida em Castro Verde a 22/11/2014.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Quadras de WC (I)

Existem dias para tudo.
Da árvore, criança, mãe, pai, namorados, etc...
Também teria de existir este Dia Mundial do WC...
Porque 2,4 biliões de pessoas em todo o Mundo não possuem saneamento adequado e todos os anos 2,5 milhões de crianças morrem de diarreia, que poderia ter sido impedida se existissem boas condições de saneamento.
Um bom motivo para se celebrar este dia, o da luta para que tal situação se combata e todos tenham direito a um futuro melhor.

O WC sempre foi também local onde partilhávamos pensamentos mais brejeiros, libertadores mesmo (em todos os sentidos).
Daí o motivo deste post. O de através do Humor, também registar todos estes momentos.
Aqui segue o primeiro:

"Estava a sofrer de cagar
Vim aqui cagar à Caixa (Centro de Saúde)
Só por eu cagar por fora
Deram-me dez dias de baixa!"

[Gravado à mão na porta do WC do Centro de Saúde de Soares dos Reis, Vila Nova de Gaia]
Informante: António José Ferreira de Almeida Valente, 72 anos, natural de Castelões de Cepêda (Paredes), a residir atualmente em Vila Nova de Gaia.

Feliz Encontro n' "O Jardim de Epicuro".

A vida tem destes encontros. Descobri por intermédio de uma grande amiga que fiz agora recentemente um poeta cuja obra todos iremos conhecer em 18 publicações póstumas e próximas.
Um Homem a sério, que gostaria imenso de ter conhecido e privado pessoalmente.
Há pessoas assim. Que na sua companhia nos fazem esquecer as invejas, falsidades, parasitismos e pequenez intelectual dos muitos que nos rodeiam.
Só o conhecerei agora um pouco mais através da sua obra, mas do pouco que já pude observar, sinto que me esperam momentos de leitura apaixonantes, mui certamente.
Aqui fica a sua biografia, presente na obra: "O Jardim de Epicuro Cânticos Líricos".

António Baptista Borges

«António Baptista Borges nasceu em Évora, no dia 25 de Agosto de 1922.
O pai era oficial do exército e a mãe doméstica. O ambiente familiar - teve oito irmãos - era propício à afirmação da cultura, das raízes, da identidade, razão pela qual António afirmava enfática e frequentemente "O Alentejo é um Continente".
A mãe viu-o sempre carinhosamente como o primogénito, cedo se apercebendo do seu talento.
O acidente que lhe incapacitou um braço [ocorrido aos 7 anos de idade, em casa dos avós, em Pias] acentuou a sua cumplicidade relativamente às originalidades do seu carácter, estatuto que lhe valeu para sempre a alcunha de "Sr. Marquês".
Porém, a morte da mãe, quando António era jovem, desencadeou a desintegração da família.
Pretendendo seguir a carreira diplomática, licenciou-se em Económicas e Financeiras (Secção Diplomática e Consular), ambição travada pelo defeito físico num braço.
Foi o 1º classificado no Curso Superior de Cultura do Instituto Espanhol de Lisboa e diplomou-se em Estudos Americanos pela Universidade Hispano-Americana de Santa Maria de La Rábida (Huelva).
Por apreciar a cultura francesa, frequentou o Curso de Língua e Civilização Francesas, da Universidade de Aix-Marseille.
Identificava-se como "Cavaleiro Ibérico", valorizava o amor andaluz e Garcia Lorca.
No seu insaciável desejo de conhecimento - dominava as línguas italiana, inglesa, espanhola e francesa -, visitou o norte da Europa, a Escandinávia em especial, atraído pelo seu "blond" feminino.
A Itália e a Grécia não as conheceu como desejava, embora as tenha vivido febrilmente como a sua obra evidencia.
Mas foi a África, onde leccionou nas décadas de 60 e 70, que o marcou indelevelmente como atestam as suas memórias.
Foi professor do Ensino Secundário e Médio em Setúbal, Beira e Lourenço Marques (actual Maputo).
Faleceu, em Setúbal, no dia 1 de Dezembro de 2012.»

Um poema sempre actual:

"Proclamação

É preciso subir aos andaimes
E proclamar
O vazio da civilização;
Trepar pelos postos telefónicos
E cortar as comunicações;
Subir aos ministérios
E prender os políticos!
É preciso cortar as guitas
Dos balões de oxigénio
E deixar que as pessoas
Que são, de facto, boas
E incapazes de fazer mal,
Possam crescer
E viver
Sem tutela mental!
É preciso derrubar as mesas
Das reuniões
Onde se forja a infelicidade
E limpar as praias
Da ignomínia dos moralistas!
É preciso calafetar a fé,
Asfaltar a esperança
E dar livre trânsito ao amor!
É preciso que todos venham para a rua,
Assomem ao postigo e à janela,
Com um sorriso nos lábios
E uma flor na lapela!
E é preciso, é urgente
Caminhar depressa.
O mundo está cheio de gente
Que quer viver contente:
QUE NINGUÉM O IMPEÇA!"

In, Borges, António Baptista (2013): O Jardim de Epicuro Cânticos Líricos, Casa dos Professores de Setúbal - Centro de Estudos Bocageanos.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Expressões da Linguagem Popular (VII)

"Não queiras comparar o olho do cú com a Feira de Castro!"

A feira de Castro Verde é conhecida por ser um local onde se pode comprar e vender de tudo um pouco.
A expressão significa que não se pode comparar algo que nada vale com outra coisa que é o seu oposto e completamente grandioso.
Informante: César Augusto Castro Tereno Coutinho, 37 anos, nascido e criado em Moura.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Alcunhas Alentejanas (XV) Quando o Alentejo e a Catalunha ficam tão perto….. já ali.

Quando o Alentejo e a Catalunha ficam tão perto….. já ali.

Procedendo a trabalhos de recolhas de alcunhas por terras de Pias (e demais elementos arqueológico/etnográficos), deparei-me com uma alcunha pouco comum, pensava eu, para esta terra, “Prim”.
Quem seria esta figura, ou este local (segundo testemunhos vindos de Moura, Prim teria sido um local).

Joan Prim i Prats, foi – no dizer de Antonio Ballesteros – “El hombre de Estado más hábil del siglo XIX”.
Nascido em Reus, a 16 de Dezembro de 1814, faleceu, assassinado em Madrid a 27 de Dezembro de 1870.
Foi um militar e político espanhol progressista muito influente no século XIX.
Deixo aqui o link para a Wikipédia (que com todos os erros que possa possuir ainda se vai revelando, de quando em vez, um ponto de partida inicial para muitas e profícuas pesquisas):


E outra publicação online, que mais fácil se torna em termos de consulta, para quem quiser saber mais acerca desta figura histórica:


Sabemos que o General Prim, fugido das tropas espanholas, entregou as armas, cavalos e arreios ao Administrador do Concelho de Barrancos, Manuel Cláudio Pulido, em 21 de Janeiro de 1866. Ainda hoje podemos observar no Museu Arqueológico e Etnográfico de Barrancos, a Espada do General Prim, da qual passamos a descrever, como podemos observar no dito Museu:

“Espada do General Prim
Período: Século XIX (1857)
Marca: Fª D: Toledo
Características: Espada espanhola, modelo de 1846 de tropa de cavalaria de linha. Lâmina de 86 [cm] com inscrição “Fª D: TOLEDO 1857”
Depósito temporário do Sr. Francisco Cândido Pulido”

Verificamos que em Pias [de acordo com informação presente na seguinte obra BORGES, Luís Figueira (1986): Monografia de Pias, Ed. do Autor, (s/l)] o General Prim teria pernoitado uma noite, com o seu séquito e que alguns deles poderiam ter ficado em Pias.
Teria nascido aqui e assim a dita alcunha? As pessoas mais idosas ainda se recordam de existirem em Pias dois irmãos de seus nomes, Domingos Prim Estrela e Manuel Prim Estrela, possuidores da alcunha que teria perpetuado assim a memória do dito General Prim e/ou seus seguidores liberais e progressistas.
Também por Moura, essa passagem de Prim pelo nosso País ainda estava bem viva na memória das pessoas mais idosas. André Lopes Infante Ferreira, 38 anos e a residir em Moura, afirmou-nos que em Moura, quando há uma grande confusão, as pessoas mais idosas, na casa dos 70 anos, costumam ainda hoje dizer: “Eh Pá ! Isto parece a Guerra do Prim!”. A pessoa a quem ele mais escutou dizer tal expressão era uma mulher natural de Brinches, mas a residir actualmente em Moura.
Assim, observamos ainda, que na memória popular, a figura deste militar e estadista catalão, ficou impressa nestes testemunhos, expressões e mesmo alcunhas.
Como teia de Ariadne, parecemos estar assim todos interligados em termos de Memórias, como a célebre “Teoria dos 6º”, e que não somos assim tão diferentes uns dos outros. Basta ir puxando o fio certo, que os novelos se vão assim fiando e tecendo vestimentas com as quais trajamos a nossa Memória colectiva.
Mais novidades em breve se seguirão, quanto a este Projecto e outros. Porque também Pias merece fazer parte das nossas memórias, sempre.