sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Expressões da Linguagem Popular (V)

"As migas se acabam e o pessoal deixa de comer!"

Eram as migas do João Lopes, em 1950. Estavam a fazer umas migas para o pessoal que estava a trabalhar e as ditas migas não chegavam para todos.
Daqui nasceu esta expressão.
Informante: Francisco José de Oliveira Domingos, 48 anos, nascido e criado em Serpa.

Expressões da Linguagem Popular (IV)

"Quando o petisco era fraquinho, a malta mais velha diz: «É fome e cabelo grande!»"
"Nos inícios dos anos 60 existiam os Hippies, que eram postos à margem e os mais velhos diziam que era uma geração perdida. Era fome, trabalho está quieto e era malta de cabelo grande."
Informante: César Augusto Castro Tereno Coutinho, 37 anos, nascido e criado em Moura.

Expressões da Linguagem Popular (III)

"Isto é uma casa farta ! Os ratos quando se assomam aos armários vêm com as lágrimas nos olhos!"

Significa que nessa casa a miséria é tal, que os próprios ratos, não encontrando o que comer, vêm a chorar dos armários.
Informante: César Augusto Tereno Coutinho, 37 anos, nascido e criado em Moura.

Alcunhas Alentejanas (XIV)


César "Smith"

César Augusto Castro Tereno Coutinho, 37 anos, nascido e criado em Moura.
A alcunha vem do tio, Joaquim Coutinho, falecido com 50 anos, nascido e criado em Moura.
Esta alcunha nasceu por causa de um jogador do Benfica e de um golo que ele marcou numa final.
O tio andou a correr pela escola a gritar: "Golo do Smith!" "Golo do Smith!". E assim ficou.
O seu irmão necessitava de uma alcunha por causa do atletismo e também ficou o "Chico Smith".

Alcunhas Alentejanas (XIII)

"Chico Sintra"

Francisco José de Oliveira Domingos, 48 anos, nascido e criado em Serpa.
Os seus irmãos também "herdaram" a dita alcunha.
Sintra é alcunha que vem do tempo do pai (tinha a alcunha no B.I., entre parêntesis).
O pai era mesmo natural de Sintra, de São João das Lampas, daí a alcunha.
De seu nome José Domingos, falecido aos 79 anos de idade em Beja.

sábado, 20 de setembro de 2014

Rezas (III) Bruxas (I)

Quando Dona Catarina e seu irmão passavam num certo local, no dito habitava uma velha corcunda, que as pessoas da localidade diziam ser bruxa.
Sempre que por ela passavam, faziam figas com os dedos da mão, dizendo esta oração já antiga:

"Tú és de ferro
E eu sou de aço
Tú és bruxa
Mas eu to embaraço
E o mal que me desejas
Vá para cima do teu engaço!"

Informante: Dona Catarina Conceição Maria Pedro, 76 anos, nascida no Espírito Santo (Mértola) e a residir actualmente em Beja. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Poetas Populares (II)

"Mulheres Alentejanas

Antigamente no Alentejo
o pão tinha outro sabor
Era do suor e cansaço
dum povo trabalhador

Em grupos pela madrugada
seguiam meio ensonadas
um rancho de ceifeiras
seguiam já meio cansadas

Antes do trabalho começar
há muito que madrugaram
deixaram as sopas já prontas
os filhos amamentaram.

Alguns pendurados nos seios
mamam com as mães a andar
os olhos semi cerrados
embalados pelo caminhar.

Quando chegam ao seu destino
à sombra das árvores os deitam
ajeitam as suas foices
os encarregados já espreitam.

Têm que se apressar
os regos são bem compridos
quando o sol está a pique
já têm os lombos doridos.

Com o vai-vém das foices
afinam suas cinturas
limpam o suor das testas
as suas carnes são duras

E, ao ritmo das foices
cantam canções em coro
assim enquanto se canta
não há tempo para choro.

Chega a hora tão esperada
para uma pausa fazer
é hora de merendar
mas pouco há que comer.

O pão está seco do calor
o toucinho a derreter
e para escorregar melhor
água fresca vai beber

muda os cueiros dos filhos
amamenta-os novamente
agora que ia descansar
são horas de pegar no batente

O Sol esse não perdoa
queima suas peles trigueiras
às vezes ficam a pensar
para quê tantas canseiras

Voltam para casa à tardinha
com os pés já arrastando
os cardos não perdoaram
algumas pernas rasgando.

Lavam-se apressadamente
ainda há muito a fazer
depois de lavarem os filhos
há que fazer o comer.

Têm que fazer a barrela
para a roupa branquear
depois varrem a casa
com os filhos a chorar

para fazer a açorda
põem a água ao lume
esmagam os alhos na tigela
como já é seu costume.

Cambaleando entra o marido
depois de já ter afogado
as suas mágoas na taberna
do vizinho ali do lado.

Se ele vier cantando
então está tudo bem
mas se ele vem resmungando
é melhor não falar ninguém

deita os miúdos à pressa
para não arreliarem o pai
às vezes se estala a porrada
já nem uma lágrima sai

depois de tudo acalmar
na cama caí esgotada
seu marido serve-se dela
mas ela não dá por nada.

Ainda se lembra a tempo
vai à pressa remendar
as calças do filho mais velho
porque esse anda a estudar

Têm gosto que ele saiba ler
para ter um outro ofício
Talvez um dia mais tarde
não tenha este sacrifício

depois de pouco dormir
levanta-se ainda cansada
volta a fazer o mesmo
porque já é madrugada

assim se passavam os dias
e os anos a correr
era sempre tudo igual
até se envelhecer.

Não usavam pó de arroz
nem pinturas no seu rosto
sua beleza natural
era marcada p'lo desgosto

Estas mulheres de trabalho
perfumadas com suor
envelheciam mais rápido
mas tinham grande valor.

Debaixo do tórrido Sol
desejava ver a labutar
aquele que diz que o Alentejano
é lento a trabalhar."

Poema da autoria de: Maria da Luz Filipe Duarte Freitas, 54 anos, nascida e criada em Beja.