quarta-feira, 7 de maio de 2014

Alcunhas Alentejanas (III)

“José da Penca”

Sr. José Rogado (Foto: Maria João Marques)
Alcunha que vem da parte de um qualquer antepassado do lado do Pai e que teria tido a sua origem devido ao tamanho do nariz dessa pessoa.
Testemunho do Sr. José Manuel Cavaqueira Rogado, 48 anos, nascido e criado em Pias (Serpa).
[Vendedor de produtos hortícolas, criação e transformação de porco preto nacional].

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Fenómenos Luminosos (I)

De algum tempo a esta parte temos verificado de Norte a Sul do país que diversos tipos de fenómenos luminosos fazem parte do imaginário popular e folclore local.
Alguns já registamos e passamos ao prelo. Outros serão aqui seguidamente transcritos mais em bruto, seguindo-se, quiçá, interpretações mais reflectidas futuramente acerca de um maior número de casos/relatos.

“Os medos ancestrais, quer sejam do escuro, trovoadas, do além-túmulo ou do desconhecido, parecem ser inerentes à condição humana. Algum(uns) conto(s) popular(es), ligado(s) a fenómenos de luzes ou globos de luz, que ainda pervive(m) nos nossos dias parece(m) comprová-lo.
Desde a mais remota antiguidade que estas espécies de prodígios da mãe natureza são assinaladas. Não nos esqueçamos que, por exemplo, em época romana, cometas e estrelas poderiam augurar bons ou maus eventos que sucederiam algum tempo depois do seu registo. (…) Aliás, várias têm sido as tentativas de explicação para certo tipo de fenómenos imbuídos no folclore local, relacionáveis com outros de âmbitos regional, nacional e mesmo transfronteiriço em vários espaços geográficos no nosso planeta (…)”[1].

Em épocas medievais tais avistamentos destes fenómenos eram também relacionáveis com as presenças de figuras divinas ou demoníacas. Não raras vezes associavam-se estes avistamentos à observação de figuras altas, vestidas de branco e luminosas – que nos nossos dias e desde o «boom» do fenómeno o.v.n.i. são associados a manifestações de Et’s e que em épocas mais recuadas do passado histórico eram associadas a manifestações angelicais de enviados/mensageiros de uma qualquer divina entidade extraterrena.
Mas, sem mais considerandos, aqui fica o registo.

Relato de informante que optou pelo anonimato:
Há cerca de 40 anos atrás, na estrada entre Pias e Moura, de noite, algumas pessoas iam de carro de Pias para Moura e viram uma luz de tamanho indeterminado, que se tornava maior à medida que se aproximava do veículo em que seguiam. Quando chegou perto do dito, este, imobilizou-se. Davam ao motor de arranque e o carro não trabalhava. Quando a Luz finalmente se afastou o carro voltou a trabalhar.


[1] In VALENTE, Marco (2013): A Luz da Caniceira – um conto popular alentejano. In Aldraba. Boletim n.º 13 da Aldraba – Associação do Espaço e Património Popular. (s/l). pp.16-20

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Para que a Memória perdure Relatos de perseguições, tortura e morte ocorridas durante a Ditadura Fascista (I)

Recordo-me de escutar a seguinte frase há alguns anos atrás enquanto deambulava nos meus trabalhos de campo e recolhas por terras do centro de Portugal:
“Para que o Mal prevaleça, apenas é necessário que os Homens Bons nada façam.”
Algum tempo depois vim a saber que o seu autor, Edmund Burke, a teria utilizado por forma a criticar os excessos cometidos durante o período de terror a mando de Robespierre (também ele vítima dos seus próprios actos). Burke acreditava assim que a revolução francesa tinha sido um marco de ignorância e brutalidade, nomeadamente através da execução brutal de "homens bons" como Lavoisier.
Porque também em Portugal muitos foram os Homens Bons que tombaram lutando contra um regime ditatorial de inspiração fascista, estes posts serão assim dedicados a todos aqueles que usualmente a História tradicional não confere voz e às suas estórias de luta, perseguições, abusos, tortura e morte sofridos às mãos de um regime ditatorial implacável e castrador quer de corpos como de mentes, buscando assim confinar os portugueses à dócil e acéfala mentalidade seguidista e congénere tacanhez de espírito.
Mas, sem mais delongas, aqui fica o primeiro registo.

Testemunho do Sr. Francisco do Carmo Martins, ou “Chico Borreguinho”, 83 anos, nascido e criado em Pias (Serpa):

O pessoal do Algarve não tinha trabalho e vinham para o Alentejo fazer as ceifas e nós ficávamos sem trabalho. Juntaram-se algumas dezenas de pessoas (mais de sessenta) e fomos à Herdade dos Canivetes pedir trabalho e protestar contra essa situação.
Veio a Guarda e a Pide e prendeu-nos a todos cerca de quatro meses e meio em Caxias, interrogando-nos, sempre tentando saber quem eram os chefes responsáveis pela organização de tal protesto. Ocorreram tais factos cerca de 3 ou 4 anos antes do 25 de Abril de 1974.

Motivações para o registo. Um desabafo acerca de um contínuo desassossego.

O que me motiva para o registo de lendas, contos, mitos contemporâneos uns, com raízes centenárias outros, aqui, neste blog?
Sabemo-lo bem que nunca chegaremos aos pés daquele “Lavrador silencioso, sumido num dos vales sertanejos da Alta Estremadura…”, mas a ele, à sua leitura atenta o devemos, o facto de nos motivarmos para o registo, interpretação de contos, lendas, estórias e demais aspectos da nossa tradição oral. De tempos que se vão perdendo irremediavelmente, pois uma massa acéfala se tem formado nas últimas décadas, cujo único objectivo é correr festivais, comer e beber, jamais contestar e nada mais. Como os “trends” do mundo da economia, nada dura para sempre, a mutabilidade dos tempos é um facto, que sucede para o melhor e para o pior.
O intuito assim, é o de dar voz aos “fracos” e que são votados (pelos próprios familiares mais chegados por vezes) ao ostracismo. Porque hoje, neste mundo actual valorizam (algumas criaturas em lugares de chefia que desrespeitam todos os dias, cargo e eleitores) o “empreendedor” individual (não raras vezes narcisista, egoísta, falso), que pensa apenas em proveito próprio. Como o afirmava o Prof. Cláudio Torres há algum tempo atrás, mais ou menos com as seguintes palavras: «Infelizmente a escola actual ensina que os mais velhos são burros e ignorantes, que os seus conhecimentos de nada valem. E que para evoluir, os jovens têm de imigrar para as grandes cidades, libertando-se assim desses ensinamentos.»
E porque as Lendas desde tenra idade nos motivaram sempre também na nossa contínua busca das verdades, deixo aqui uma citação, recordação pessoal de quando vezes sem conta lemos a Lenda da Dama Pé de Cabra e a qual carinhosamente sempre guardei na minha memória:

“Vós os que não credes em bruxas, nem em almas penadas, nem nas tropelias de Satanás, assentai-vos aqui ao lar, bem juntos ao pé de mim, e contar-vos-ei a história de D. Diogo Lopes d’Haro, senhor de Biscaia. E não me digam no fim:
«Não pode ser.» Pois eu sei cá inventar coisas dessas?
Se a conto, é porque a li num livro muito velho, quase tão velho como o nosso Portugal.
E o autor do livro velho leu-a algures ou ouviu-a contar, que é o mesmo, a algum jogral em seus cantares.
É uma tradição veneranda, e quem descrê das tradições lá irá para onde o pagar.
Juro-vos que, se me negais esta certíssima história, sois dez vezes mais descridos que S. Tomé antes de ser grande santo. E não sei se eu estarei de ânimo de perdoar-vos, como Cristo lhe perdoou.
Silêncio profundíssimo, porque vou principiar (…)”

Alexandre Herculano, As Lendas e Narrativas, A Dama Pé de Cabra
(Rimance de um jogral, Século XI)

terça-feira, 29 de abril de 2014

Alcunhas Alentejanas (II)

“Chico Borreguinho”
Sr. Francisco Martins (Foto: Marco Valente)

Alcunha que vem do tempo da sua avó do lado materno: “Mariana das Ovelhas”.
Sua mãe, Dona Maria do Carmo Caeiro ficou “Maria Borreguinha” e a partir daí a descendência ficou com a dita alcunha de “Borreguinho”.
Testemunho do Sr. Francisco do Carmo Martins, 83 anos, nascido e criado em Pias (Serpa).
Recolha efectuada a 29/04/2014

sábado, 26 de abril de 2014

As “Santas” de Pias

Relatamos em seguida, com base em informações prestadas pelo Sr. Romão Mariano e sua esposa, a Dona Luzia, um episódio insólito, ocorrido em Pias e sobre o qual julgamos valer a pena efectuar reflexão – não querendo influenciar ninguém, nem efectuar quaisquer tipo de juízos de valor, quer sobre pessoas, como sobre eventos ocorridos.
Sr. Romão Mariano e Dona Luzia (foto: Maria João Marques)

Um sujeito (Adriano Augusto Santos) veio de Trancoso e foi para Lisboa aprender a arte de farmacêutico. Juntou uns dinheiros e casou-se com uma senhora do Montijo.
Tiveram duas filhas que chegando à idade da adolescência quiseram recolher-se e não conviver com outras raparigas da idade delas – ou qualquer outra pessoa, salvo raras excepções[1].
Todos os dias recebiam jornais que compravam, mas não saiam de casa. Nunca quiseram luz eléctrica.
Salvo erro em 1950 (ano santo mariano) a imagem de Fátima passou por Pias e elas assomaram-se à varanda (mas recolhidas) para a ver. Uma das raras ocasiões em que as “Santas”, como ficariam conhecidas na localidade, se deixaram tenuemente vislumbrar.
Os moços mais novos por vezes, devido à curiosidade que tal episódio neles suscitava (como à restante população da localidade em geral), por vezes assomavam-se a este ou aquele muro para ver se avistavam alguma das “Santinhas” no quintal.
A mãe delas tinha problemas de coluna (esteve cerca de sete anos deitada, acamada) e o Dr. Abílio, médico, é que lhe prestava assistência em termos de cuidados de saúde. Tentou arranjar casamento entre a filha mais nova, a Maria de Lurdes Santos e este, ao que a filha lhe teria respondido: “A mãe gosta tanto dele, case-se você com ele!”.
O seu esposo já tinha falecido, ela tinha receio de falecer, pois visto que a irmã mais velha (Leonídia Santos) já indiciava que estaria a perder a razão, não ficaria assim ninguém para tomar conta da irmã mais nova. Esta irmã mais velha acabaria eventualmente por falecer após os pais de ambas, vítima de cancro e sem nunca querer receber tratamento.
Um senhor, Manuel Málhinho é que tratava das coisas delas, após o falecimento de seus pais. Ia às compras, tratava de todo o género de negócios (tudo papéis passados por debaixo da porta do quintal).
Já por último, Maria de Lurdes Santos, a remanescente das duas “Santinhas” ou “Santas de Pias” acabaria por ser levada contra a sua vontade para um Lar, uma vez que vivia também sem o mínimo de condições de higiene. Só a título de exemplo, espalhavam ambas jornais pelo chão da casa, onde tinham galinhas e outros animais à solta. Quando o chão se encontrasse demasiadamente sujo jogavam os jornais fora, substituindo-os por outros em camadas espalhadas pelo chão.

O que é que nos define enquanto seres humanos?
O que é que faz de nós Humanistas ou não?
Onde começa e acaba a responsabilidade social de cada um de nós?

Nunca me esqueço de umas palavras escutadas há algum tempo atrás e na altura atribuídas a Mahatma Ghandi (se bem que as palavras proferidas valham por si mesmas e não tão somente por  quem as proferiu), fazendo assim também nós, o nosso “mea culpa”:
“É muito fácil emocionarmo-nos por crianças com fome em África ou por uma tragédia qualquer ocorrida na Índia mas, a maior parte das vezes não prestamos atenção ao nosso vizinho que passa fome ou ao mendigo face a quem viramos o rosto quando por ele passamos.”
Por isso, ousamos dizer: “Caridadezinha jamais, Fraternidade sempre.”


[1] Daqui nasceram uma série de rumores e estórias, motivados pelo insólito da situação. Desde o pai que as teria feito reclusas na sua própria casa, por exemplo.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Mestre Romão Moita Mariano (Poeta e Ferreiro de Pias – Serpa)


Foto: Maria João Marques

“Habituei-me a olhar para aquele homem, invariavelmente de fato de macaco, com outros olhos. Não conseguia ver nele apenas o artífice que trabalhava naquela oficina. Pareceu-me adivinhar que por detrás daquele sorriso matreiro se escondia uma constante procura da métrica certa, da palavra exacta… ao mesmo tempo que as peças saíam, perfeitas, das suas habilidosas mãos.”
António Cordeiro (Actor)

Conhecemos Mestre Romão Moita Mariano ontem e penas temos de não o ter conhecido há muito mais tempo. Privamos consigo, escutando seus poemas, estórias de outros tempos, relatos e experiências vividos, por alguém que nos enleia facilmente na ternura do seu olhar.
Palavras escutadas ditas por uma alma genuinamente simples e imensamente rica.
Ao escutá-lo, vemos passar pelos nossos olhos pessoas, gestos, crenças, alma.
Verdadeiramente representa o que (para nós) é ser Alentejano.
Transcrevemos de seguida um poema intitulado: Alentejo povo meu, para que também aqui, honra seja feita aquele que tais versos proferiu.
 Marco Valente

Alentejo Povo Meu

Alentejo, povo triste
que canta p’ra disfarçar
a mágoa que nele existe!
Canta, quando se embriaga,
E só pára de cantar,
Um dia, quando se apaga.

Alentejo, povo agreste
na epiderme curtida,
na roupa com que se veste!
Povo de fé e de esperança,
de fé com que é feita a vida,
de esperança que nunca alcança.

Alentejo, povo meu,
povo inculto, povo rude,
sem ser cristão nem ateu!
Povo escravo do que come,
e se há alguém com saúde,
é sempre quem passou fome.

Alentejo, povo ordeiro,
povo de brandos costumes,
tolerante, hospitaleiro.
Que parte o pão aos bocados,
para calar os queixumes
e a fome aos desgraçados.

Alentejo, a tua herança
são punhados de cantigas,
que eu canto desde criança.
Quem as escreveu e compôs?...
Foram muitas gerações
de poetas como nós.

[1990]

In, MARIANO, Romão Moita [2002]: A malhar em ferro quente, Arruda Editora, Arruda dos Vinhos, p. 27